sábado, 13 de dezembro de 2014

Banda Oriental





Outra vez sozinha

Outra noite vazia

Faz barulho lá fora

E o silêncio me invade por dentro

Estou cansada

Mas meus olhos custam a fechar

Ouço um ritmo diferente,

Da banda oriental

Ouço três idiomas

Me confundo

Perco a linha

Paro, num breve lapso desmaio

Hola para dizer oi


Adios e digo bye


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

P.S.


E mais uma vez pronunciei a palavra secreta em silêncio
Já perdi as contas, quantas vezes quase cuspi o dizer proibido
Proibido talvez pelo excesso de vezes que alguém já disse em vão

Sem pensar, sem sentir
E eu sem dizer...
Jogo a frase muda no ar
E me despeço do real
Finjo ou acredito que você entendeu
Que sabe ouvir o vazio
Que entende um “...” mudo

Que se desconecta do óbvio em busca do absurdo
Porque é tudo tão absurdo que nem a palavra mais óbvia sai

Mas se ainda não percebeu
Posso te contar um segredo
Eu sempre digo em pensamento
As vezes até tento me fazer notar,
Respiro fundo, paro meu olhar no teu
E deixo por um instante, as emoções me paralisar
Então, a frase se repete incontrolavelmente
De uma maneira que jamais conseguiria dizer em voz alta
As vezes penso que guardo para mim,
Que espero pelo momento certo
Que evito para não me precipitar
Não te assustar
Mas a verdade é que digo
Digo sem voz, digo por tantos outros sentidos
E sem querer já disse mais de mil vezes
O que talvez eu ainda não devesse dizer...


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Dali e daqui

Me desmancho de amor 

Na sombra de um amanhecer mudo


Me diluo como a água


Sigo a correnteza do rio


Que riu em frente a minha cara lavada

Debochando da dor

Num riso sem sentido e sem magoa

Costurando a tristeza toda em minha cara...



                                      

 Ju Campos.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

E...canto


E em algum canto te encontro

E em  uma palavra

Me encanto

Deixo você entrar

Por qualquer canto

Descanso

Abro os braços

Balanço

Me despeço

Reclamo

No caminho eu tropeço

Outra vez

Abro os braços

E te espero...


terça-feira, 29 de julho de 2014

O novo trapezista

parafraseando Galeano...

Assim como Luz Marina, eu conheci o circo Firuliche (Acrobata, de Eduardo Galeano) muito cedo. Nunca soube viver nada pela metade. Quebrei muitas costelas nas acrobacias do meu coração. Perdi várias vezes para o trapézio desse circo. Houve um momento em que eu cansei. Olhei para dentro de mim e estabeleci uma lei. Como eu não podia mais sair do circo Firuliche, ao menos poderia estabelecer uma nova ordem. Pronto, era tão fácil: – Proibido se apaixonar.
Segui por algumas semanas, meses e anos essa nova lei. Até que me apresentaram a um novo trapezista. Nesse momento, subverter a regra era meu maior desejo. Resisti por algumas horas. Pensei que estava tudo sob controle. Mas o controle durou pouco e não resistiu ao primeiro olhar de adeus. Eu sabia que tudo ficaria no passado, mas o passado já era parte do meu presente, um presente que renegava o futuro. O circo Firuliche nunca mais seria o mesmo.
As novas acrobacias desse trapezista enfeitiçavam o meu olhar como um número de hipnose. Eu não podia escapar. A gentileza e a suavidade dos movimentos me conduziam em uma dança circular e infinita. Eu, assim tão desajeitada, ele, a prestar atenção em si e no meu passo, cuidando para eu não cair. Ainda havia um fio. Mas o tempo corria, como se estivesse participando de uma maratona. Criei alguns obstáculos para que o tempo tropeçasse, mas ele sempre se erguia. E na mesma velocidade eu fazia do meu coração um picadeiro aconchegante.
Agora, desejo o futuro. Para brincar debaixo da sua lona rasgada mais uma vez. Para fazer de um suspiro, um carinho; de uma lágrima, um beijo e dessa lona, nossa casa. Então, pergunto eu: para que criar as leis? E lhe respondo: para desobedecê-las.
Juliana Chaves 


(La acrobata de la bola, Pablo Picasso)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Desviando

Um vai
e um vem
Digo que não vou mais voltar
Dou meia volta
já estou aqui outra vez
aos seus pés
mãos
braços
pele...
Com o corpo,
com a alma à disposição

Então,
deixa eu passar
deixa eu ficar
e despir o mal
as magoas...
Vira a página de uma vez
Me desenha em seus poemas
deixa eu escrever uma música nova
e desfazer o nó só com um olhar

Abre o sinal, baixa a guarda
deixa eu entrar
eu não tenho pressa
só quero estar
na tua
inteiramente sua
coberta dos carinhos que tu me dá

Por isso eu digo, vem...
Vem se aconchegar no meu colo
estabilizar as batidas do meu coração
Vem...
o compasso é rápido
já passou da hora
Ainda posso esperar
só não demora
Mas se por acaso você demorar
tudo bem,
eu vou te buscar...

Ju Campos

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Chama Só

A força que me chama para brincar,
Eu vim a esse mundo para pular,
Saltar,
Voar…
A superfície só serve se for para andar:
De pés descalços na areia,
Na grana,
No palco,
Em qualquer lugar…
Ir…
Eu nasci para ir…
Além da realidade,
Do infinito e do sonho.
E mais uma vez voar,
Um voo só,
Porém livre,
Alto…
De cima, preparo o salto
Inclino o pescoço e mergulho
No mar,
No fundo, busco as profundezas do infinito
Fico imersa e sinto:
Ainda estou livre,
Um mergulho só,
Porém profundo,
Intenso e vivo…

Ju Campos

p.s: poema encontrado em arquivos de 2008

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Dona de SI

Pode ser que eu me faça de louca
e tire a sua roupa
mas preste atenção

Eu sou uma mulher
que quando quer
diz não
finge e desfaz
a cama

E a dona de si nem quer saber
mas quando o coração reclama
beijo a sua boca
sem muito a dizer...

Escolho você
mesmo antes de você chegar
antes de me tirar pra dançar
antes que a música termine...

Talvez nada aconteça
se você quiser decidir
tentar me ganhar
tentar definir
num fragmento
de um samba qualquer

Sou dona de mim
e sou feliz
quando caio no samba é assim

meu ritmo no comando
da cadência que eu escolhi

Mesmo antes de você chegar
antes de me tirar pra dançar
antes que a música termine

Sou dona de mim...





letra: Ju Campos
música: Duda Fortuna.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Um casaco verde e estranho

Olhos úmidos. Assim eram os olhos daquela moça. Quando entrou no ônibus ela olhava para o chão, não encarava o olhar de ninguém, mesmo quando falava, ela evitava o encontro de qualquer outro olhar. A moça desceu no primeiro shopping da cidade. Ela vestia um casaco verde e no pescoço, havia um lenço multicolorido. Eu também entrei no mesmo shopping. Aqueles olhos ainda úmidos tomaram-me de curiosidade. O queixo da moça de casaco verde tremia, mas tremia de forma impedida, como se ela não o pudesse tremer livremente.
Com determinação, ela comprou um ingresso para o cinema. Esperei um pouco para não ser notado. Logo, também entrei na sala escura. Mal começou o filme, ainda nos trailers, a moça liberou a umidade concentrada nos seus olhos. Pensei naquele momento que os olhos daquela moça, de casaco verde, guardaram o dia inteiro aquelas lágrimas. Por isso a umidade curiosa daquele olhar. Eram negros aqueles olhos encharcados. O filme começou. Um documentário sobre poesia e música brasileira. Pensei que a moça inundaria a sala de cinema. Mas não. Aos poucos, seu olhar se transformava. As letras das músicas e dos poemas confortavam a moça, de tal forma que, nem mesmo ela acreditava. Pensei que ela nunca mais fosse chorar.
Ela saiu do cinema. Depois de todo o roll, depois dos agradecimentos, e olhou algo no celular. Então, guardou-o novamente na bolsa e levantou da poltrona. Seus passos eram lentos, ouvi ela pedir uma informação, a voz era calma, ela tinha uma voz aveludada, eu tive até vontade de deitar e dormir encostado no veludo daquela voz. E aquele casaco verde, eu nunca vi tal casaco antes. Ele parecia ter sido confeccionado especialmente para aquela moça.
Eu me perdi em devaneios e nem a vi ir embora. Fui para parada de ônibus. O ônibus demorava e tava um frio inesperado. Eu lembrava do casaco verde. Dos olhos úmidos. Pensei, será que amanhã os olhos daquela moça voltariam a ficar úmidos? Eu espero que sim.

por John Key 


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Start II - A Bailarina e o Acaso

Para presentear minha amiga Fefa Copatti em seu show I Ato do disco - Pra bailarina que eu Não FuiEla me pediu um poema meu que fiz sobre bailarina, como não encontrei, reeditei esse e adaptei para contar mais uma história dançante. 


A Bailarina e o Acaso

Se é pra vir
Então vem
Não engane o passo
Nem tropece no caminho
Siga os desenhos que ela deixou no ar
E apenas dance
Mas dance bem devagar
Aviste de longe o rastro da bailarina
Que transformou a rua no seu palco
Com uma música que parecia tocar só pra ela
Já não sabe mais se é bailarina
Ou uma mulher a vagar só
Desgarrada como o vento,
Ela dança ainda mais
Num compasso só
Dança para o acaso
Debocha da solidão...


Ju Campos


                                           @FernandaCopatti

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Fuga Visceral


Faz alguns anos que resolvi viajar para "Coração", não muito longe de "Pulmões". Posso dizer que esse é um lugar muito quente e a circulação é bem movimentada. Deve ser por essa razão que ninguém permanece por muito tempo lá. A única distração é observar o sangue venoso e o sangue arterial que trafegam por todos os cantos desse lugar. Eles trazem informações de todas as partes, cantos inimagináveis e desconhecidos. E nesse percusso, os glóbulos sempre se encontram. Mas, vez que outra, eles demonstram certa rejeição aos seres estranhos e suas diferentes substâncias.

Mas confesso que encontrar um ser ainda mais louco e utópico, não é tarefa fácil. Porém, posso dizer que tamanha resistência a essa aceitação apenas me fortaleceu. Agora, já de carona, estou sendo transportada para o “Cérebro”- lugar conectado e repleto de informações importantes. O Hipocampo tornou-se um velho amigo meu. No entanto, não me adaptei a vida dessa região – são todos muito tumultuados, com neurônios por todos os lados. Mesmo assim, eu ainda era um ser desconhecido, evitado e para completar; era muita a saudade que eu sentia da minha colônia querida.

Não posso negar que aprendi muitas coisas novas. Às vezes, me arrependo de algumas atitudes invasivas, da falta de posicionamento e exatidão. Mas confesso que faria tudo de novo. Seguiria o mesmo caminho, talvez mudaria um pouco a forma de conduzir e eleger a direção. Tudo foi válido. Obstáculos, indiferença e a rejeição. Posso dizer que venci.   Agora não sou mais uma simples “Bactéria” solitária. Sinto que percorri todos os caminhos possíveis em busca de aceitação e sentido. Uma bactéria globalizada, mesmo que machucada, trago comigo uma mala repleta de sonhos realizados.

Assim, a bactéria vence o obstáculo maior: o medo de ser aceita. Por medo de ser negada e por medo de fazer parte de uma nova cultura. O desconhecido surpreendeu-a, como um acaso flutuante. E foi nesse instante que a força, sabedoria e tenacidade com que se luta pelos propósitos transborda de forma lúcida e translúcida. Podia optar por desistir, morrer, esperar, evitar e assim não sofreria com a angustia de estar só e distante. Felizmente, a opção foi lutar. Encarar os fatos e assumir a guerra por viver, não mais sobreviver dentro desse corpo inóspito.

Caminhos precisavam ser desbravados. É sempre bom lembrar, mesmo que clichê, que não há tempo perdido para quem sabe aonde quer chegar. Moral da história, bactéria ou não, viajar é preciso. Seja como for – de carona, sozinho ou apenas com a imaginação. Tudo fará sempre sentido, pois o sentido da vida é sentir-se vivo.

“Encarar o novo é um desafio eletrizante. E para tal, precisamos enxergar além do que está ao lado.” (A Bactéria Viajante).


p.s: uma produção de 2001, mas não estou certa da data. O fato é que me reencontrei nessa louca fase da minha vida e gostei.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Start


Só para começar: massageie o meu coração com as duas mãos e desfaça todos os nós que o passado deixou...

Se é pra vir então vem
Não engane o passo
Nem tropece no caminho
Vem sem armas
Sem escudo
Não há jogo aqui
É apenas mais uma dança
Com passos, sem compasso
Suaves gestos correspondidos
Carinhos contemplados
Vem, mas não vem depressa
Vem seguro, permaneça
Sem desviar o olhar
Aviste um lar

E dance
Mas dance bem devagar...

Ju Campos