segunda-feira, 7 de abril de 2014

Fuga Visceral


Faz alguns anos que resolvi viajar para "Coração", não muito longe de "Pulmões". Posso dizer que esse é um lugar muito quente e a circulação é bem movimentada. Deve ser por essa razão que ninguém permanece por muito tempo lá. A única distração é observar o sangue venoso e o sangue arterial que trafegam por todos os cantos desse lugar. Eles trazem informações de todas as partes, cantos inimagináveis e desconhecidos. E nesse percusso, os glóbulos sempre se encontram. Mas, vez que outra, eles demonstram certa rejeição aos seres estranhos e suas diferentes substâncias.

Mas confesso que encontrar um ser ainda mais louco e utópico, não é tarefa fácil. Porém, posso dizer que tamanha resistência a essa aceitação apenas me fortaleceu. Agora, já de carona, estou sendo transportada para o “Cérebro”- lugar conectado e repleto de informações importantes. O Hipocampo tornou-se um velho amigo meu. No entanto, não me adaptei a vida dessa região – são todos muito tumultuados, com neurônios por todos os lados. Mesmo assim, eu ainda era um ser desconhecido, evitado e para completar; era muita a saudade que eu sentia da minha colônia querida.

Não posso negar que aprendi muitas coisas novas. Às vezes, me arrependo de algumas atitudes invasivas, da falta de posicionamento e exatidão. Mas confesso que faria tudo de novo. Seguiria o mesmo caminho, talvez mudaria um pouco a forma de conduzir e eleger a direção. Tudo foi válido. Obstáculos, indiferença e a rejeição. Posso dizer que venci.   Agora não sou mais uma simples “Bactéria” solitária. Sinto que percorri todos os caminhos possíveis em busca de aceitação e sentido. Uma bactéria globalizada, mesmo que machucada, trago comigo uma mala repleta de sonhos realizados.

Assim, a bactéria vence o obstáculo maior: o medo de ser aceita. Por medo de ser negada e por medo de fazer parte de uma nova cultura. O desconhecido surpreendeu-a, como um acaso flutuante. E foi nesse instante que a força, sabedoria e tenacidade com que se luta pelos propósitos transborda de forma lúcida e translúcida. Podia optar por desistir, morrer, esperar, evitar e assim não sofreria com a angustia de estar só e distante. Felizmente, a opção foi lutar. Encarar os fatos e assumir a guerra por viver, não mais sobreviver dentro desse corpo inóspito.

Caminhos precisavam ser desbravados. É sempre bom lembrar, mesmo que clichê, que não há tempo perdido para quem sabe aonde quer chegar. Moral da história, bactéria ou não, viajar é preciso. Seja como for – de carona, sozinho ou apenas com a imaginação. Tudo fará sempre sentido, pois o sentido da vida é sentir-se vivo.

“Encarar o novo é um desafio eletrizante. E para tal, precisamos enxergar além do que está ao lado.” (A Bactéria Viajante).


p.s: uma produção de 2001, mas não estou certa da data. O fato é que me reencontrei nessa louca fase da minha vida e gostei.

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