Faz
alguns anos que resolvi viajar para "Coração", não muito longe de
"Pulmões". Posso dizer que esse é um lugar muito quente e a
circulação é bem movimentada. Deve ser por essa razão que ninguém permanece por muito tempo lá. A única distração é observar o sangue venoso e o sangue
arterial que trafegam por todos os cantos desse lugar. Eles trazem informações
de todas as partes, cantos inimagináveis e desconhecidos. E nesse percusso, os
glóbulos sempre se encontram. Mas, vez que outra, eles demonstram certa
rejeição aos seres estranhos e suas diferentes substâncias.
Mas
confesso que encontrar um ser ainda mais louco e utópico, não é tarefa fácil.
Porém, posso dizer que tamanha resistência a essa aceitação apenas me fortaleceu.
Agora, já de carona, estou sendo transportada para o “Cérebro”- lugar conectado
e repleto de informações importantes. O Hipocampo tornou-se um velho amigo meu.
No entanto, não me adaptei a vida dessa região – são todos muito tumultuados,
com neurônios por todos os lados. Mesmo assim, eu ainda era um ser
desconhecido, evitado e para completar; era muita a saudade que eu sentia da
minha colônia querida.
Não
posso negar que aprendi muitas coisas novas. Às vezes, me arrependo de algumas
atitudes invasivas, da falta de posicionamento e exatidão. Mas confesso que faria
tudo de novo. Seguiria o mesmo caminho, talvez mudaria um pouco a forma de
conduzir e eleger a direção. Tudo foi válido. Obstáculos, indiferença e a
rejeição. Posso dizer que venci. Agora não sou mais uma simples “Bactéria”
solitária. Sinto que percorri todos os caminhos possíveis em busca de aceitação
e sentido. Uma bactéria globalizada, mesmo que machucada, trago comigo uma mala
repleta de sonhos realizados.
Assim,
a bactéria vence o obstáculo maior: o medo de ser aceita. Por medo de ser
negada e por medo de fazer parte de uma nova cultura. O desconhecido
surpreendeu-a, como um acaso flutuante. E foi nesse instante que a força, sabedoria
e tenacidade com que se luta pelos propósitos transborda de forma lúcida e
translúcida. Podia optar por desistir, morrer, esperar, evitar e assim não
sofreria com a angustia de estar só e distante. Felizmente, a opção foi lutar.
Encarar os fatos e assumir a guerra por viver, não mais sobreviver dentro desse
corpo inóspito.
Caminhos
precisavam ser desbravados. É sempre bom lembrar, mesmo que clichê, que não há
tempo perdido para quem sabe aonde quer chegar. Moral da história, bactéria ou
não, viajar é preciso. Seja como for – de carona, sozinho ou apenas com a
imaginação. Tudo fará sempre sentido, pois o sentido da vida é sentir-se vivo.
“Encarar
o novo é um desafio eletrizante. E para tal, precisamos enxergar além do que
está ao lado.” (A Bactéria Viajante).
p.s: uma produção de 2001, mas não estou certa da data. O fato é que me reencontrei nessa louca fase da minha vida e gostei.
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