terça-feira, 29 de julho de 2014

O novo trapezista

parafraseando Galeano...

Assim como Luz Marina, eu conheci o circo Firuliche (Acrobata, de Eduardo Galeano) muito cedo. Nunca soube viver nada pela metade. Quebrei muitas costelas nas acrobacias do meu coração. Perdi várias vezes para o trapézio desse circo. Houve um momento em que eu cansei. Olhei para dentro de mim e estabeleci uma lei. Como eu não podia mais sair do circo Firuliche, ao menos poderia estabelecer uma nova ordem. Pronto, era tão fácil: – Proibido se apaixonar.
Segui por algumas semanas, meses e anos essa nova lei. Até que me apresentaram a um novo trapezista. Nesse momento, subverter a regra era meu maior desejo. Resisti por algumas horas. Pensei que estava tudo sob controle. Mas o controle durou pouco e não resistiu ao primeiro olhar de adeus. Eu sabia que tudo ficaria no passado, mas o passado já era parte do meu presente, um presente que renegava o futuro. O circo Firuliche nunca mais seria o mesmo.
As novas acrobacias desse trapezista enfeitiçavam o meu olhar como um número de hipnose. Eu não podia escapar. A gentileza e a suavidade dos movimentos me conduziam em uma dança circular e infinita. Eu, assim tão desajeitada, ele, a prestar atenção em si e no meu passo, cuidando para eu não cair. Ainda havia um fio. Mas o tempo corria, como se estivesse participando de uma maratona. Criei alguns obstáculos para que o tempo tropeçasse, mas ele sempre se erguia. E na mesma velocidade eu fazia do meu coração um picadeiro aconchegante.
Agora, desejo o futuro. Para brincar debaixo da sua lona rasgada mais uma vez. Para fazer de um suspiro, um carinho; de uma lágrima, um beijo e dessa lona, nossa casa. Então, pergunto eu: para que criar as leis? E lhe respondo: para desobedecê-las.
Juliana Chaves 


(La acrobata de la bola, Pablo Picasso)