parafraseando Galeano...
Assim como Luz Marina, eu conheci o
circo Firuliche (Acrobata, de Eduardo Galeano) muito cedo. Nunca soube viver
nada pela metade. Quebrei muitas costelas nas acrobacias do meu coração. Perdi
várias vezes para o trapézio desse circo. Houve um momento em que eu cansei.
Olhei para dentro de mim e estabeleci uma lei. Como eu não podia mais sair do
circo Firuliche, ao menos poderia estabelecer uma nova ordem. Pronto, era tão
fácil: – Proibido se apaixonar.
Segui por algumas semanas, meses e anos essa nova
lei. Até que me apresentaram a um novo trapezista. Nesse momento, subverter a
regra era meu maior desejo. Resisti por algumas horas. Pensei que estava tudo sob
controle. Mas o controle durou pouco e não resistiu ao primeiro olhar de adeus. Eu sabia que tudo ficaria no passado,
mas o passado já era parte do meu presente, um presente que renegava o futuro.
O circo Firuliche nunca mais seria o mesmo.
As novas acrobacias desse trapezista
enfeitiçavam o meu olhar como um número de hipnose. Eu não podia escapar. A
gentileza e a suavidade dos movimentos me conduziam em uma dança circular e
infinita. Eu, assim tão desajeitada, ele, a prestar atenção em si e no meu
passo, cuidando para eu não cair. Ainda havia um fio. Mas o tempo corria, como
se estivesse participando de uma maratona. Criei alguns obstáculos para que o
tempo tropeçasse, mas ele sempre se erguia. E na mesma velocidade eu fazia do
meu coração um picadeiro aconchegante.
Agora, desejo o futuro. Para brincar
debaixo da sua lona rasgada mais uma vez. Para fazer de um suspiro, um carinho;
de uma lágrima, um beijo e dessa lona, nossa casa. Então, pergunto eu: para que
criar as leis? E lhe respondo: para desobedecê-las.
Juliana Chaves
(La acrobata de la bola, Pablo Picasso)

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