segunda-feira, 28 de abril de 2014

Dona de SI

Pode ser que eu me faça de louca
e tire a sua roupa
mas preste atenção

Eu sou uma mulher
que quando quer
diz não
finge e desfaz
a cama

E a dona de si nem quer saber
mas quando o coração reclama
beijo a sua boca
sem muito a dizer...

Escolho você
mesmo antes de você chegar
antes de me tirar pra dançar
antes que a música termine...

Talvez nada aconteça
se você quiser decidir
tentar me ganhar
tentar definir
num fragmento
de um samba qualquer

Sou dona de mim
e sou feliz
quando caio no samba é assim

meu ritmo no comando
da cadência que eu escolhi

Mesmo antes de você chegar
antes de me tirar pra dançar
antes que a música termine

Sou dona de mim...





letra: Ju Campos
música: Duda Fortuna.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Um casaco verde e estranho

Olhos úmidos. Assim eram os olhos daquela moça. Quando entrou no ônibus ela olhava para o chão, não encarava o olhar de ninguém, mesmo quando falava, ela evitava o encontro de qualquer outro olhar. A moça desceu no primeiro shopping da cidade. Ela vestia um casaco verde e no pescoço, havia um lenço multicolorido. Eu também entrei no mesmo shopping. Aqueles olhos ainda úmidos tomaram-me de curiosidade. O queixo da moça de casaco verde tremia, mas tremia de forma impedida, como se ela não o pudesse tremer livremente.
Com determinação, ela comprou um ingresso para o cinema. Esperei um pouco para não ser notado. Logo, também entrei na sala escura. Mal começou o filme, ainda nos trailers, a moça liberou a umidade concentrada nos seus olhos. Pensei naquele momento que os olhos daquela moça, de casaco verde, guardaram o dia inteiro aquelas lágrimas. Por isso a umidade curiosa daquele olhar. Eram negros aqueles olhos encharcados. O filme começou. Um documentário sobre poesia e música brasileira. Pensei que a moça inundaria a sala de cinema. Mas não. Aos poucos, seu olhar se transformava. As letras das músicas e dos poemas confortavam a moça, de tal forma que, nem mesmo ela acreditava. Pensei que ela nunca mais fosse chorar.
Ela saiu do cinema. Depois de todo o roll, depois dos agradecimentos, e olhou algo no celular. Então, guardou-o novamente na bolsa e levantou da poltrona. Seus passos eram lentos, ouvi ela pedir uma informação, a voz era calma, ela tinha uma voz aveludada, eu tive até vontade de deitar e dormir encostado no veludo daquela voz. E aquele casaco verde, eu nunca vi tal casaco antes. Ele parecia ter sido confeccionado especialmente para aquela moça.
Eu me perdi em devaneios e nem a vi ir embora. Fui para parada de ônibus. O ônibus demorava e tava um frio inesperado. Eu lembrava do casaco verde. Dos olhos úmidos. Pensei, será que amanhã os olhos daquela moça voltariam a ficar úmidos? Eu espero que sim.

por John Key 


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Start II - A Bailarina e o Acaso

Para presentear minha amiga Fefa Copatti em seu show I Ato do disco - Pra bailarina que eu Não FuiEla me pediu um poema meu que fiz sobre bailarina, como não encontrei, reeditei esse e adaptei para contar mais uma história dançante. 


A Bailarina e o Acaso

Se é pra vir
Então vem
Não engane o passo
Nem tropece no caminho
Siga os desenhos que ela deixou no ar
E apenas dance
Mas dance bem devagar
Aviste de longe o rastro da bailarina
Que transformou a rua no seu palco
Com uma música que parecia tocar só pra ela
Já não sabe mais se é bailarina
Ou uma mulher a vagar só
Desgarrada como o vento,
Ela dança ainda mais
Num compasso só
Dança para o acaso
Debocha da solidão...


Ju Campos


                                           @FernandaCopatti

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Fuga Visceral


Faz alguns anos que resolvi viajar para "Coração", não muito longe de "Pulmões". Posso dizer que esse é um lugar muito quente e a circulação é bem movimentada. Deve ser por essa razão que ninguém permanece por muito tempo lá. A única distração é observar o sangue venoso e o sangue arterial que trafegam por todos os cantos desse lugar. Eles trazem informações de todas as partes, cantos inimagináveis e desconhecidos. E nesse percusso, os glóbulos sempre se encontram. Mas, vez que outra, eles demonstram certa rejeição aos seres estranhos e suas diferentes substâncias.

Mas confesso que encontrar um ser ainda mais louco e utópico, não é tarefa fácil. Porém, posso dizer que tamanha resistência a essa aceitação apenas me fortaleceu. Agora, já de carona, estou sendo transportada para o “Cérebro”- lugar conectado e repleto de informações importantes. O Hipocampo tornou-se um velho amigo meu. No entanto, não me adaptei a vida dessa região – são todos muito tumultuados, com neurônios por todos os lados. Mesmo assim, eu ainda era um ser desconhecido, evitado e para completar; era muita a saudade que eu sentia da minha colônia querida.

Não posso negar que aprendi muitas coisas novas. Às vezes, me arrependo de algumas atitudes invasivas, da falta de posicionamento e exatidão. Mas confesso que faria tudo de novo. Seguiria o mesmo caminho, talvez mudaria um pouco a forma de conduzir e eleger a direção. Tudo foi válido. Obstáculos, indiferença e a rejeição. Posso dizer que venci.   Agora não sou mais uma simples “Bactéria” solitária. Sinto que percorri todos os caminhos possíveis em busca de aceitação e sentido. Uma bactéria globalizada, mesmo que machucada, trago comigo uma mala repleta de sonhos realizados.

Assim, a bactéria vence o obstáculo maior: o medo de ser aceita. Por medo de ser negada e por medo de fazer parte de uma nova cultura. O desconhecido surpreendeu-a, como um acaso flutuante. E foi nesse instante que a força, sabedoria e tenacidade com que se luta pelos propósitos transborda de forma lúcida e translúcida. Podia optar por desistir, morrer, esperar, evitar e assim não sofreria com a angustia de estar só e distante. Felizmente, a opção foi lutar. Encarar os fatos e assumir a guerra por viver, não mais sobreviver dentro desse corpo inóspito.

Caminhos precisavam ser desbravados. É sempre bom lembrar, mesmo que clichê, que não há tempo perdido para quem sabe aonde quer chegar. Moral da história, bactéria ou não, viajar é preciso. Seja como for – de carona, sozinho ou apenas com a imaginação. Tudo fará sempre sentido, pois o sentido da vida é sentir-se vivo.

“Encarar o novo é um desafio eletrizante. E para tal, precisamos enxergar além do que está ao lado.” (A Bactéria Viajante).


p.s: uma produção de 2001, mas não estou certa da data. O fato é que me reencontrei nessa louca fase da minha vida e gostei.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Start


Só para começar: massageie o meu coração com as duas mãos e desfaça todos os nós que o passado deixou...

Se é pra vir então vem
Não engane o passo
Nem tropece no caminho
Vem sem armas
Sem escudo
Não há jogo aqui
É apenas mais uma dança
Com passos, sem compasso
Suaves gestos correspondidos
Carinhos contemplados
Vem, mas não vem depressa
Vem seguro, permaneça
Sem desviar o olhar
Aviste um lar

E dance
Mas dance bem devagar...

Ju Campos